Resposta curta: a mitologia brasileira não é um panteão único, como o grego. É a soma de três heranças: as cosmologias dos povos indígenas, das quais a mais citada é a tupi-guarani (Tupã, Jaci, Guaraci, Anhangá); o folclore, em que indígenas, portugueses e africanos misturaram criaturas como o Saci, o Curupira e a Iara; e os orixás, como Iemanjá, Oxum, Xangô e Ogum, que não são lenda: são divindades cultuadas hoje no candomblé e na umbanda.
Mitologia brasileira: deuses, criaturas do folclore e orixás
Quem conta cada versão
Quase tudo o que circula como "mitologia brasileira" passou por três filtros:
- Os missionários e cronistas do século XVI. O jesuíta José de Anchieta e os franceses André Thevet e Jean de Léry registraram as crenças dos tupinambá do litoral, quase sempre para combatê-las.
- Os escritores do século XIX. O Romantismo queria dar ao Brasil uma antiguidade à altura da grega, e O Selvagem (1876), de Couto de Magalhães, organizou nomes indígenas num panteão.
- Os folcloristas do século XX. Em 1917, Monteiro Lobato fez um inquérito sobre o Saci entre os leitores de O Estado de S. Paulo, que virou livro em 1918. Luís da Câmara Cascudo mapeou as versões regionais em Geografia dos Mitos Brasileiros (1947) e no Dicionário do Folclore Brasileiro (1954).
Como cada criatura muda de um estado para outro, abaixo vai sempre dito de onde vem a versão contada.
Os deuses tupi-guarani
O primeiro aviso é o mais importante: o "panteão tupi" das listas escolares é, em boa parte, uma montagem feita por gente de fora das aldeias.
| Nome | O que é | De onde vem a versão |
|---|---|---|
| Tupã | O trovão; na catequese, o nome de Deus | Cronistas do século XVI e jesuítas |
| Jaci | A lua | Tupi; deusa nas listas, menino nos mitos guarani |
| Guaraci | O sol | Tupi; com Jaci e Rudá, a "trindade" de Couto de Magalhães (1876) |
| Rudá | O amor | Só O Selvagem; contestado |
| Anhangá | Espírito temido; depois, protetor da caça | Thevet e Léry (século XVI) e o folclore posterior |
| Ñamandu | O criador, que fez a palavra antes da terra | Guarani mbyá, Ayvu Rapyta (1959) |
Tupã era, para os tupinambá do século XVI, o trovão: mais uma manifestação do sagrado do que um deus criador. Foram os jesuítas que, na catequese em tupi, usaram "Tupã" para dizer Deus. Com Anhangá fizeram o caminho inverso: o espírito que atormentava os tupinambá virou o diabo. Depois, no folclore, Anhangá passou a proteger os bichos, na forma de um veado branco de olhos de fogo que castiga o caçador insaciável.
Jaci e Guaraci são a lua e o sol. Nas listas, deusa e deus; nos mitos guarani recolhidos por etnógrafos, Sol (Kuaray) e Lua (Jasy) são irmãos gêmeos, e em muitas versões a mãe deles é devorada pelas onças. Da lua vem também a lenda amazônica da vitória-régia: Naiá, que sonhava virar estrela, se atira no lago atrás do reflexo da lua e vira a flor. Já Rudá, o deus do amor, só existe em O Selvagem, e o antropólogo Arthur Ramos já duvidava dele.
E mesmo dentro do tronco tupi as versões mudam. Entre os guarani mbyá, que no Brasil vivem do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo, o criador é Ñamandu, e Tupã é o senhor das águas e do trovão, segundo os cantos recolhidos por León Cadogan. O Brasil tem centenas de povos indígenas, muitos fora desse tronco, cada um com a sua cosmologia.
As criaturas do folclore brasileiro
| Criatura | Onde se conta mais | O que faz | De onde vem |
|---|---|---|---|
| Saci-Pererê | Sudeste e Sul, mas conhecido no país inteiro | Menino de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo, que anda nos redemoinhos, esconde objetos e trança a crina dos cavalos | Raiz guarani (o Jaxy Jaterê), com acréscimos africanos e europeus; Lobato o tornou nacional |
| Curupira | O país todo, com mais força no Norte | Guardião da mata, de cabelo vermelho e pés virados para trás, que despista quem caça demais | Tupi; Anchieta já o registra em 1560 |
| Caipora | Nordeste, sobretudo | Protetora dos bichos, monta um porco-do-mato e só deixa o caçador em paz se ele levar fumo para ela | Tupi (caapora, "habitante do mato"); muitas vezes confundida com o Curupira |
| Iara | Amazônia e rios do interior | Moça de cabelos longos que canta e leva os homens para o fundo do rio | Europeia no essencial, segundo Câmara Cascudo: o ser das águas dos registros coloniais era o ipupiara, masculino |
| Boitatá | Várias regiões, com nomes diferentes | Cobra de fogo que protege as matas de quem as queima | Tupi; é o "baetatá", a "coisa de fogo" da carta de Anchieta de 1560 |
| Mula sem cabeça | Interior do país | Mulher que namorou um padre e vira mula sem cabeça, com fogo no pescoço, nas noites de quinta para sexta-feira | Ibérica, trazida pelos portugueses |
| Boto | Amazônia | Golfinho de rio que vira moço de branco nas festas juninas, de chapéu para esconder o furo da cabeça, e seduz as moças | Amazônica, com camadas europeias |
| Cuca | O país todo, pelas cantigas de ninar | Bruxa que pega a criança que não quer dormir | A "coca" portuguesa; a cara de jacaré é de Monteiro Lobato |
| Mapinguari | Amazônia | Gigante peludo, de um olho só e com uma boca na barriga | Amazônica; há quem ligue o mito às preguiças-gigantes extintas |
| Lobisomem | O país todo | O menino que nasce depois de seis irmãs e vira bicho nas noites de lua cheia | Europeia |
| Negrinho do Pastoreio | Rio Grande do Sul | Menino escravizado, açoitado e jogado num formigueiro pelo estancieiro; reaparece vivo, ao lado de Nossa Senhora, e ajuda a achar coisas perdidas | Gaúcha, fixada por Simões Lopes Neto em Lendas do Sul (1913) |
O Saci ganhou até data: o Dia do Saci, 31 de outubro, é lei estadual em São Paulo desde 2004, escolhido como contraponto ao Halloween.
Lendas de terror e as menos conhecidas
Para quem procura lendas brasileiras de terror, três que quase não aparecem nas listas:
- Corpo-Seco (Sul e Sudeste): um homem tão ruim em vida que a terra se recusou a desfazer o seu corpo, e nem Deus nem o diabo quiseram a sua alma. O cadáver seco vaga pelas estradas.
- Pisadeira (São Paulo e Minas Gerais): uma velha magra, de unhas compridas, que sobe no peito de quem foi dormir de barriga cheia. É a explicação popular para a paralisia do sono.
- Matinta Pereira (Pará e Amazonas): um assobio agudo no meio da noite. Para fazê-lo parar, promete-se fumo ou café, e na manhã seguinte aparece uma velha para cobrar.
Os orixás: fé viva, não folclore
Iemanjá, Oxum, Xangô e Ogum aparecem em muitas listas de "mitologia brasileira", e aqui cabe um cuidado. Os orixás chegaram com os africanos escravizados, sobretudo de terras iorubás (hoje Nigéria e Benin), e são cultuados hoje no candomblé, na umbanda e em outras religiões de matriz africana. As histórias deles, os itãs, são sagradas para quem é de axé, como a Bíblia para um cristão. Abaixo vai só o que qualquer pessoa vê nas ruas e praias do Brasil, sem entrar no que pertence aos terreiros.
| Orixá | O que rege | O que se vê no Brasil |
|---|---|---|
| Iemanjá | As águas e a maternidade. Na Nigéria, é a senhora do rio Ogun; no Brasil, virou a rainha do mar | A festa de 2 de fevereiro no Rio Vermelho, em Salvador, e as flores jogadas no mar no Réveillon |
| Oxum | Os rios e as cachoeiras, o amor, a fertilidade e o ouro. Na Nigéria, o seu bosque sagrado em Osogbo é patrimônio da UNESCO | Oferendas nas águas doces, em rios e cachoeiras |
| Xangô | O trovão, o fogo e a justiça. Na tradição iorubá, foi um rei de Oyó | O machado duplo, o oxê; na Bahia, é associado a São Jerônimo |
| Ogum | O ferro, a guerra, os caminhos e a tecnologia | No Rio de Janeiro, festejado no dia de São Jorge, 23 de abril; na Bahia, associado a Santo Antônio |
Essas associações com santos católicos, o sincretismo, nasceram da repressão: proibidos de cultuar os orixás abertamente, os escravizados os aproximaram dos santos da Igreja. Em 1983, ialorixás de terreiros tradicionais de Salvador, entre elas Mãe Stella de Oxóssi e Mãe Menininha do Gantois, assinaram um manifesto pedindo o fim dessa associação, e muitos terreiros seguem essa linha. Para conhecer os itãs contados com respeito, a referência é Mitologia dos Orixás (2001), em que o sociólogo Reginaldo Prandi reúne 301 deles, recolhidos na África, no Brasil e em Cuba.
A mitologia brasileira não está no MythologyNow, e é melhor dizer isso com todas as letras. O app para aprender mitologia conta as histórias gregas, nórdicas e egípcias em episódios de áudio de 5 minutos, e quem o usa escolhe a próxima mitologia votando entre as opções que o app propõe. Se o que te prende no Curupira é a mata que castiga o caçador, a Grécia tem a sua versão em Ártemis, com o capítulo 1 inteiro aqui no site.
Perguntas rápidas
Quais são os deuses da mitologia brasileira?
Os mais citados são os tupi-guarani: Tupã (o trovão), Jaci (a lua), Guaraci (o sol), Rudá (o amor) e Anhangá, numa lista organizada por missionários e escritores entre os séculos XVI e XIX. Cada povo indígena tem a sua própria cosmologia: entre os guarani mbyá, o criador é Ñamandu. Os orixás, como Iemanjá e Xangô, também são cultuados no Brasil, mas pertencem a religiões vivas de matriz africana.
Quais são os personagens do folclore brasileiro?
Os mais conhecidos são o Saci-Pererê, o Curupira, a Caipora, a Iara, o Boitatá, a Mula sem cabeça, o Boto, a Cuca, o Mapinguari, o Lobisomem e o Negrinho do Pastoreio. Entre os menos lembrados, e ótimos para histórias de terror, estão o Corpo-Seco, a Pisadeira e a Matinta Pereira.
Quando é o Dia do Folclore?
Em 22 de agosto, data instituída no Brasil por decreto em 1965. Ela lembra o 22 de agosto de 1846, quando o inglês William Thoms usou pela primeira vez a palavra folk-lore. O Dia do Saci, 31 de outubro, é lei estadual em São Paulo desde 2004.
Quem é Jaci na mitologia tupi?
Jaci é a lua (em tupi, jasy). Couto de Magalhães a apresentou em 1876 como uma das três grandes divindades tupis, ao lado de Guaraci, o sol, e Rudá, o amor. Nas listas escolares é uma deusa, mas nos mitos guarani a Lua é um menino, o irmão gêmeo do Sol.
Anhangá é do bem ou do mal?
Depende de quem conta. Para os cronistas do século XVI, era um espírito que atormentava os tupinambá, e os jesuítas fizeram dele o diabo. No folclore posterior virou protetor dos animais: um veado branco de olhos de fogo que castiga o caçador insaciável.



